Escrever qualquer coisa sobre pobreza nunca é fácil. Se levarmos em consideração que o Brasil ainda guarda enormes espaços onde a pobreza material é observada lado a lado com a riqueza, o tema é sem qualquer sombra de dúvida imensamente complexo.
Nova Friburgo guarda uma história muito interessante que, se analisada de forma crítica e eficiente, demonstra que os contrastes sociais sempre foram parte integrante desse lugar.
Começamos como um projeto pioneiro de colonização com europeus livres, que acabou minguando antes mesmo de se consolidar. A cidade jamais se tornou a “ilha de liberdade em um mar de trabalho escravo” que idealmente deveria ter sido - algo que, inclusive, seria coerente com o próprio nome Friburgo, que pode ser traduzido como “cidade” ou “vila livre”.
Mas, apesar das enormes dificuldades iniciais, a cidade "prosperou" e conseguiu continuar existindo ao longo dos anos.
Os "anos de ouro" de uma Nova Friburgo

Em uma perspectiva de crescimento material, a cidade experimentou somente no século XX uma elevação econômica com o advento do desenvolvimento industrial nas primeiras décadas.
Pegando literalmente carona na rede ferroviária que existiu aqui até o ano de 1964, várias empresas do segmento têxtil começaram a se instalar na cidade e funcionaram como um importante motor de desenvolvimento.
Antes disso, a cidade já tinha iniciado desde o século passado também a ser reconhecida por seu potencial turístico e até mesmo como estância de recuperação da saúde, com importantes personagens históricos vindo passar temporadas aqui, como o famoso escritor Machado de Assis.
As manufaturas têxteis e metalúrgicas fizeram surgir no município vilas operárias, espaços de convívio e bairros inteiros, com fábricas empregando trabalhadores de cidades vizinhas e atraindo migração regional.
Naturalmente, embora houvesse melhores salários, alguma qualificação e menor informalidade, temos que sempre lembrar dos problemas estruturais de ordem econômica e social na cidade, também existiam neste período.
Se foram as nossas indústrias

A desindustrialização é um fenômeno que começa a se acentuar no Brasil a partir da década de 90 do século XX.
Produtos importados (principalmente asiáticos) entraram muito baratos, o que inviabilizou a lucratividade de muitas fábricas e, aqui em Nova Friburgo, o baque foi bastante forte, com importantes indústrias como a grandiosa Ypu deixando de operar após décadas empregando milhares de pessoas.
Essa foi apenas uma das principais causas para a perda de várias fábricas aqui.
Além a Ypu, outras também não resistiram e foram minguando ao longo do tempo, o que jogou a cidade em uma incerteza e crise.
E na crise as pessoas se viram como podem e, nestes momentos, surgem as "soluções alternativas".
Nasce a "Capital Nacional da Moda Íntima"

Com a falência da indústria de grande porte em nosso município, começa a ganhar força aqui um segmento que veio para redefinir o cenário econômico da cidade: a produção de lingerie ou moda íntima.
Muitas das pessoas demitidas de indústrias têxteis começam a fabricar em suas próprias casas, já que indústrias como a Filó SA tinham neste segmento uma considerável mão de obra capacitada.
Algumas dessas foram as pioneiras no que viria a ser no futuro a "tábua de salvação" da economia municipal, sendo até hoje a principal atividade econômica de Nova Friburgo.
Apesar de o segmento ser fundamental, é importante ressaltar que ele surgiu sem planejamento, sem políticas públicas, um distrito industrial têxtil, nem mesmo estratégia estatal para fomentar e desenvolver o setor.
Hoje em dia é comum escutar reclamações sobre o descaso do poder público com o polo de moda íntima, mas é muito importante compreender que esse envolvimento nunca realmente existiu desde o começo.
O descarte dos restos de materiais têxteis por exemplo, ainda é um desafio, porque muitos resíduos acabam sendo tratados como lixo comum ou sem uma destinação técnica adequada, o que é também evidência da falta de planejamento.
Não é raro encontrar esse descarte de forma irregular em várias partes da cidade na atualidade.
Uma cidade brasileira sem qualquer dúvida

A história de Nova Friburgo não deixa de ter algum diferencial com relação a muitas outras cidades brasileiras; afinal, somos a única cidade criada a partir de um decreto imperial, a primeira colonização suíça e alemã com recurso estatal também.
Todavia, excluindo algumas características únicas, principalmente ligadas à sua formação, somos uma típica cidade brasileira repleta de desigualdades em um dos países mais desiguais do mundo.
Aqui o padrão de acumulação da riqueza segue a "ordem natural das coisas". Dados recentes evidenciam que, apesar do bom IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), a cidade experimenta aumento da população mais pobre.
Há um contingente expressivo de famílias em vulnerabilidade econômica, o que reforça a presença de desigualdades sociais graves.
A dita "Suíça Brasileira" é uma ilusão que habita apenas algumas mentes desconectadas da realidade, e que muitas vezes usam o termo de forma oportunística.
Onde está a riqueza de Nova Friburgo afinal?

A riqueza da economia friburguense é ampla. Analisando as receitas municipais, chegamos a quase um bilhão de reais no ano de 2024, o que significa que, sim, existe muito dinheiro circulando na economia da cidade.
Mas, na minha opinião, a riqueza de nosso município ainda não é totalmente compreendida e explorada de forma segura e sustentável; ela não está naquilo que podemos ver.
A principal riqueza de Nova Friburgo reside em sua natureza e biodiversidade, com quilômetros de florestas protegidas da Mata Atlântica que oferecem um potencial imenso para um futuro econômico eficiente e seguro.
Podemos não apenas focar no ecoturismo, com trilhas, cachoeiras, rafting e observação de pássaros em áreas como Circuito Três Picos, Lumiar, Amparo, Mury e tantos outros, atraindo visitantes para experiências responsáveis e gerando renda sem esgotar recursos, mas também podemos explorar a biodiversidade de Nova Friburgo além do turismo por meio de biotecnologia, bioeconomia e pesquisa científica, gerando valor sustentável a partir da florestas preservadas.
Uma descoberta científica recente aqui é uma evidência disso. Um fungo raro e extremamente interessante e com muito potencial.
Além disso, essa biodiversidade assegura regulação climática, recursos hídricos e resiliência contra eventos extremos, transformando "quilômetros de florestas protegidas" em ativo estratégico para um desenvolvimento eficiente, diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas.
Eu diria que a proteção e o uso eficiente deste tesouro é, sem dúvida, uma das principais chaves para termos uma cidade verdadeiramente rica no futuro.